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A Câmara Municipal de Betim realizou nesta quarta-feira (22) uma audiência pública para debater as condições de trabalho dos motoboys e entregadores de aplicativo da cidade.
O encontro foi convocado pelo vereador Tiago Santana (PCdoB) e reuniu representantes da Secretaria de Mobilidade Urbana, da Polícia Militar (PM), do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e trabalhadores da categoria.
A falta de pontos de apoio foi o tema central das discussões. O vereador Adelio Carlos (PDT) comparou a realidade de Betim com a da capital mineira e expôs a precariedade enfrentada pelos trabalhadores.
“Eu tive o prazer de, em Belo Horizonte, conhecer o ponto de apoio dos motoboys, onde eles têm banheiro, cozinha para tomar um café, uma televisão, uma poltrona para descansar. Aqui em Betim, não tem nem onde eles fazerem as necessidades deles”, disse Adelio Carlos.
O vereador ainda citou os locais onde os motoboys aguardam chamados na cidade: debaixo de uma lona perto do Partage Shopping, sob uma árvore em frente à Câmara e embaixo do viaduto na beira da linha.
Os próprios trabalhadores relataram como a falta de estrutura afeta diretamente a saúde. Jackson Santos, o Motoboy Elegante — criador de conteúdo com mais de 120 mil seguidores nas redes sociais —, foi um dos mais contundentes.
“Eu tive infecção de urina porque não consegui ir ao banheiro. Tive problemas intestinais porque não estava me alimentando direito. Um banheiro químico é primordial. Vocês não têm noção mesmo”, relatou Jackson.
Ele também apontou problemas operacionais na Avenida Amazonas, onde a ausência de vagas exclusivas obriga os motociclistas a parar em fila dupla, sujeitos a multa de R$ 195,23.
“Ali não tem lugar nem para caber uma moto. Como que eu desembarco um passageiro sendo que não tem lugar para estacionar?”, questionou o entregador.
Jackson defendeu ainda a inclusão da educação para o trânsito nas escolas, especialmente no período do Maio Amarelo, que acontece em maio.
“A gente tem que enraizar isso lá atrás, com alunos de 14, 15, 16 anos. Dali saem futuros condutores”, afirmou.
“Nós não vamos dar conta se a gente fizer isso com apenas 27 agentes que nós temos hoje no município de Betim”, admitiu o secretário.
Daniel Costa defendeu que o setor privado assuma parte da responsabilidade pela criação de espaços de apoio nos grandes empreendimentos.
“Não é custo para o empresário. Isso chama-se investimento. Porque o retorno é certo”, afirmou.
O secretário lembrou que o transporte coletivo perdeu passageiros desde a pandemia, que migraram para aplicativos, e que a tendência é de crescimento do setor de motofrete.
Ele também mencionou a necessidade de reestruturar a Secretaria de Mobilidade, hoje subordinada à Ecos, empresa de limpeza urbana, o que limita sua capacidade de fiscalização e planejamento.
A PM apresentou dados sobre acidentes e crimes envolvendo motocicletas no município. O Major Marconi Eduardo Araújo, subcomandante do 66º Batalhão, informou que os acidentes com motos aumentaram na área periférica — de 104 para 134 casos no período analisado.
Na região central, os furtos de motos cresceram de 23 para 40 registros. Já os roubos, que envolvem uso de força ou violência, passaram de 9 para 14 ocorrências na mesma área.
O Major explicou por que algumas abordagens policiais são mais ostensivas do que outras.
“Às vezes, a rede de rádio passa que acabou de acontecer um assalto numa moto vermelha com dois caras de roupa preta. A PM tem que abordar. Até o momento da abordagem, a gente ainda não sabe se são os criminosos”, explicou o Major Marconi.
Ele informou ainda que cerca de 55% dos crimes, incluindo homicídios e roubos, são cometidos por agentes em motocicleta, o que levou a PM a priorizar o policiamento motorizado. Hoje, 70% das ações de prevenção ao roubo são focadas em motos e veículos.
O Major fez um pedido direto à categoria: que os trabalhadores colaborem com informações pelo 190, pelo 181 ou diretamente nos batalhões, especialmente sobre peças e motos com origem suspeita.
“Qualquer informação será válida. Principalmente no momento em que vocês vão dar manutenção na moto e precisam comprar peças”, orientou.
O diretor do SAMU de Betim, Nick Douglas, apresentou números que revelam a gravidade do problema na saúde pública.
“No ano de 2025, nós tivemos mais de mil atendimentos só do SAMU de Betim envolvendo motociclistas, com seis vítimas fatais. No Hospital Regional, foram recebidos mais de 4.500 atendimentos relacionados a motociclistas”, informou Douglas.
O diretor alertou para o fato de que muitos trabalhadores jovens não possuem previdência nem seguro, ficando sem renda por meses em caso de acidente grave.
“Nós nos deparamos com pacientes que ficam parados quase um ano, e às vezes não pagaram um plano de previdência, não têm um seguro, e vão sofrer com suas famílias durante esse período”, disse Nick Douglas.
Entre as propostas estão: criação de pontos de apoio com banheiro, água e recarga de dispositivos; vagas exclusivas para motoboys em áreas comerciais; alteração do Código de Posturas para obrigar grandes empreendimentos a oferecer estrutura para entregadores; ampliação do Corredor Azul; programa municipal de educação para o trânsito; campanha de conscientização com motoristas do transporte coletivo; e estudo para a criação de um aplicativo municipal de entrega com taxas menores para o comércio local.
“Esses problemas estavam invisibilizados para o poder público. O que nós queremos, a partir dessa audiência pública, é trazer essa realidade para dentro do espaço público, para que essa discussão possa avançar e trazer resultados concretos para os trabalhadores”, afirmou Tiago Santana.
O vereador informou ainda que o presidente da Câmara, Léo Contador (União Brasil), sinalizou a possibilidade de uso de um espaço na Praça Milton Campos como ponto de apoio, embora a viabilidade ainda precise ser avaliada.
A audiência contou ainda com a presença dos vereadores Zequinha Romão (PP), Alexandre da Paz (MDB) e Professor Alexandre Xeréu (PL).