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A Prefeitura de Betim confirmou, nesta terça-feira (2), a abertura de um procedimento interno de averiguação sobre o convênio “Curso para Todos”, firmado com o Instituto Pedro Ivo Caminhas, popularmente conhecido como Instituto Pinduca.
A medida foi anunciada por meio de nota oficial publicada no portal da Prefeitura e ocorre após denúncias de possíveis irregularidades na aplicação de recursos públicos. A denúncia foi publicada primeiro pelo portal Jornal do Closé.
O convênio sob averiguação tem valor de R$ 2.943.718,10 e é destinado à qualificação e capacitação profissional da população. No total, o Instituto mantém sete convênios com o município, que somam mais de R$ 9.241.363,96 em recursos públicos.
Em nota oficial, a Prefeitura afirmou que instaurou o procedimento após receber “denúncias, manifestações encaminhadas aos canais oficiais da administração municipal e procedimentos internos de controle.”
O município esclareceu que as apurações buscam verificar “a regularidade da execução contratual, da prestação dos serviços, da aplicação dos recursos públicos e da eventual existência de situações que possam configurar conflito de interesses, favorecimento indevido ou outras desconformidades com os princípios da administração pública.”
A nota ressaltou ainda que “não há, até o presente momento, conclusão acerca da responsabilidade de qualquer pessoa física ou jurídica” e que as investigações têm “caráter técnico e preventivo.”
Segundo levantamento da Secretaria de Governo, divulgado com exclusividade pelo Jornal do Closé, a análise de registros entre julho de 2025 e abril de 2026 identificou 55 lançamentos financeiros que totalizam R$ 459.799,10, referentes apenas ao convênio “Curso para Todos.”
A própria Prefeitura apontou, na nota oficial, como “atitude suspeita de irregularidade” a contratação da nora da vice-prefeita Cleusa Lara (PL), identificada como Maria Eduarda Pinheiro Lima Lara.
Segundo o Jornal do Closé, a empresa de Maria Eduarda foi constituída poucos dias antes do início dos pagamentos, com capital social de apenas R$ 1 mil e atividade principal de edição de cadastros e produtos gráficos. A empresa teria recebido 18 parcelas de R$ 2 mil, somando R$ 36 mil.
A Prefeitura afirmou que a nora de Cleusa Lara “emitiu notas fiscais de serviços de marketing que, até o momento, estão com serviços ainda não comprovados” e acrescentou que “só o fato da contratação em si já cogita improbidade de ocupante de cargo público.”
Na mesma situação, a Prefeitura identificou notas fiscais em favor da filha de Vânia Elias, diretora executiva de projetos do Instituto Pinduca, também “sem os serviços devidamente comprovados e com suspeita de favorecimento familiar.”
Segundo o Jornal do Closé, a empresa da filha — identificada como Raquel Elias Trindade — é registrada para treinamento e desenvolvimento profissional e recebeu mais de R$ 30 mil no período, com reajuste no repasse mensal de R$ 2 mil para R$ 3 mil a partir de janeiro de 2026.
A Prefeitura concluiu que “em favor das empresas da nora da vice-prefeita e da diretora executiva do instituto foram destinados cerca de R$ 50.000,00 sem comprovação de serviços prestados.”
Além dos casos já citados, o levantamento do Jornal do Closé aponta outros repasses que integram o total de R$ 459 mil investigado.
Uma empresa de nome Franciele da Silveira Lopes, também criada próximo ao início do convênio, teria recebido aproximadamente R$ 20 mil. Já a empresa de Vittória Cangussu Pereira acumulou pagamentos superiores a R$ 22 mil, com atividade econômica semelhante.
A empresa de Fabiano Agostinho Alves Bonzi, voltada à consultoria administrativa, teria recebido mais de R$ 23 mil, com um único repasse superior a R$ 12 mil.
O maior vulto financeiro, segundo a publicação, ficou com o Centro de Treinamento Paládio, que teria recebido aproximadamente R$ 310,9 mil em menos de oito meses.
Ainda nesta terça-feira (2), antes da nota da Prefeitura confirmar a averiguação, o Instituto Pedro Ivo Caminhas registrou um Boletim de Ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia Civil de Betim, classificando a reportagem do Jornal do Closé como “completamente falsa” e “sem fundamento documental.”
No registro, o instituto afirmou que a matéria “tem como objetivo único e exclusivamente denegrir a imagem do Instituto Pedro Ivo e dos prestadores de serviço.”
Com a publicação da nota oficial pela Prefeitura, porém, o próprio município passou a confirmar as suspeitas de irregularidades e a apontar possível improbidade administrativa.
Após a repercussão das denúncias, o Instituto Pedro Ivo Caminhas divulgou uma nota de esclarecimento em que contesta as conclusões da reportagem do Jornal do Closé.
O Instituto afirma que Raquel Elias “é profissional formada em Enfermagem e presta serviços de consultoria técnica ao Instituto, possuindo relatórios, registros e demais documentos que comprovam a efetiva realização de suas atividades.”
Da mesma forma, segundo a nota, Maria Eduarda Pinheiro “atua na área de comunicação, desempenhando funções concretas e comprováveis, igualmente respaldadas por documentação administrativa e técnica.”
A entidade reafirma seu “compromisso com a legalidade, a transparência e a boa gestão dos recursos públicos e privados” e diz estar à disposição para apresentar toda a documentação comprobatória aos órgãos de controle.
O Portal Atalaia entrou em contato com a vice-prefeita Cleusa Lara (PL) para obter um posicionamento sobre as denúncias. Ela informou estar em um evento do partido em Belo Horizonte e disse não ter disponibilidade para conceder entrevista.
A diretora executiva do Instituto Pinduca, Vânia Elias, também foi contatada pelo Portal Atalaia, mas não retornou até o fechamento desta matéria.
A Prefeitura informou que nesta quarta-feira (3), a diretoria do Instituto Pedro Ivo Caminhas — cuja presidente é Lilian Pereira da Silva Santana — será convocada para uma reunião extraordinária para tratar “da manutenção dos projetos sociais e, ao mesmo tempo, da adoção de medidas de transparência quanto à utilização correta dos recursos públicos destinados ao Instituto.”
O município garantiu que “nenhum cidadão atendido pelos programas sociais será prejudicado” e que eventuais beneficiários poderão ser absorvidos por cursos semelhantes em outras entidades durante o processo de auditoria.
Caso sejam confirmadas irregularidades, a Prefeitura afirmou que os relatórios produzidos serão encaminhados automaticamente ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) e demais órgãos competentes.